quinta-feira, 9 de junho de 2011

ÁGUA É UM BEM OU MERCADORIA?


            Á água é um bem, mercadoria e ou produto? A água deve ser vista sob o ponto de vista humanista ou econômico? A diferença reside somente para quem se faz a pergunta.
            Os economistas dirão que na medida em que algo se torna escasso e a procura supera a demanda esse “bem” é considerado mercadoria e, se industrializado um produto. Já o humanista dirá que a água é algo necessário a vida, como o ar, portanto é um direito humano e de todos os animais do orbe e neste sentido um bem comum. Se cobrarmos pelo direito do uso da água para a sobrevivência física, estaremos agindo contra o direito humano a vida.
            O recurso água pode ser gerido pelo Estado, mas a partir do interesse do bem comum. Isso não determina que o Estado possua direito de propriedade, já que o bem é coletivo e não privado. Portanto, o Estado não pode transferir o controle de distribuição da água para o ente privado físico e ou jurídico em prejuízo do ser vivo. O tratamento da água distribuída para a população e sua distribuição certamente acarretam custos, mas não deve ser impeditivo para que alguém tenha seu direito à vida alienado por algo que em primeira instância é um bem público.
            O avanço tecnológico demonstra que a dita escassez deste bem somente seja fruto da especulação e rapina gerada pelo pensamento capitalista. A indústria é o maior consumidor da água dos mananciais, e no Brasil, por exemplo, não existe política de bacias que taxe o capitalista pelo uso abusivo e descontrolado desse recurso. Os comitês de bacias em vários estados estão paralisados nas casas do “povo”, devido principalmente ao lobby das bancadas ruralistas.
            Países no mundo, como o caso do Estado de Israel, impedem o uso da água por parte dos palestinos prisioneiros de Gaza e Cisjordânia, através de leis nacionais xenófobas, onde não permitem a construção de cisternas para a captação de água da chuva; a perfuração de poços; o uso de combustível para o bombeamento de água etc. Estados criminosos, como o citado, controlam a água através da violência da força de exércitos, que mantém na dependência seres humanos para a exploração dos mesmos como mão de obra barata. Neste sentido o interesse não é diretamente das corporações, mas de toda uma estrutura montada para manter a dependência econômica por meio da força de ocupação.
            O direito a vida é inerente a todos, e por constituir a água elemento vital a sobrevivência, não deve ser objeto de lucro ou controle seja da parte de quem for. A luta pelo direito deste bem precioso, é a luta pelo direito a vida, e qualquer resistência imposta contra aqueles que se acham proprietários da água é legitima.
            O direito de todos compreende o uso e consumo desta água de forma racional e igualitária, se existe carência do bem em lugar diverso e, abundância do mesmo em outro, com o avanço da ciência, dos meios de transporte etc, não existe justificativa para se privar o irmão de seu uso. O direito de um não impede o direito do outro, ambos se somam, portanto, a “suposta” escassez que justifica a transformação do bem em mercadoria, não se sustenta perante uma visão humanista e espírita de mundo.
            Novamente, para o capitalista – o “ladrão” – á água já é uma mercadoria, mas somente a nossa falta de ação fará com que o bem “água” seja algo indisponível a todas as pessoas do mundo. Guerras certamente existirão no futuro, como já existe na Líbia, por exemplo, em que a água será uma das alegações para o início do conflito. Mas não sejamos inocentes, a água não faltará, e o motivo alegado é somente para ocultar o egoísmo que justifica a venda de armas.
            No livro Nosso Lar, psicografado por Chico Xavier, está escrito:

A água, no mundo, meu amigo, não somente carreia os resíduos dos corpos, mas também as expressões de nossa vida mental. Será nociva nas mãos perversas, útil nas mãos generosas e, quando em movimento, sua corrente não só espalhará bênção de vida, mas constituirá igualmente um veículo da Providência Divina, absorvendo amarguras, ódios e ansiedades dos homens, lavando-lhes a casa material e purificando-lhes a atmosfera íntima.
             
           Façamos da água algo útil em nossas mãos e não elemento de discórdia entre irmãos.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

DINHEIRO



O dinheiro é um instrumento de progresso e como tal deve ser administrado. Não deve ser o fim, mas o princípio de algo; não deve ser o objetivo, mas o auxílio para atingi-lo; não deve ser instrumento de dor, mas fonte de dádivas de amor.
Na terra o dinheiro serve como estímulo aos que ainda se encontram aprisionados a matéria e ao materialismo. Não se nega que na terra dependemos das moedas como forma de organização econômica. E que sem este instrumento fictício não teríamos parâmetros para valorar produtos e serviços numa sociedade baseado no comércio de trocas e sedenta pelo lucro.
Mas novamente a criatura não deve dominar o criador, não devemos nos tornar escravos do ouro e nem tão pouco apaixonados por ele, mas como diz Emmanuel, no livro “Dinheiro”:
Não desconhecemos que na base do dinheiro é que se fazem os aviões e os arranha-céus, no entanto, é igualmente com ele que se consegue o lençol para o doente desamparado ou a xícara de leite para a criança desvalida.
* * *
Para quantos procurem compreender o assunto em foco, trocando a moeda pelo pão destinado a socorrer as vítimas da penúria ou permutando-a pelo frasco de remédio para aliviar o enfermo estirado nos catres de ninguém, reconhecerão todos eles que o dinheiro também é de Deus.
                                                                                              EMMANUEL  
Uberaba, 15 de janeiro de 1986.

            O dinheiro ainda nos liames da terra é moeda de troca e produto de especulação. Os juros, a conhecida usura, condenada de forma hipócrita no passado, é cultuada nos dias de hoje como forma “justa” de paga pelo dinheiro que se empresta a outrem, tornando o dinheiro instrumento de dor e martírio, pois causa a aflição naquele que não o possui e temor naquele que o detém.
            O dinheiro, como é o bônus-hora, deveria ser intransferível, ou seja, o que se ganha com o próprio esforço, no sentido valorativo, não deve ser transferido a outro, pois ele seria recompensado pelo mérito moral que não detivera. O dinheiro servindo como instrumento de troca, mas não de remuneração pessoal, não seria cultuado, por que a cada qual caberia a sua parte pelo o seu próprio esforço no progresso individual no auxílio ao coletivo. A usura desta forma não existiria, pois a cada qual seu dinheiro pertenceria, não sendo passível de transferência para aumentar o quinhão do irmão que solicita ou que o empresta. Em resumo, não podendo pagar por serviços prestados, mas somente por produtos, não teria necessidade de acúmulo, já que não somaria em sua riqueza algo que não poderia revender ou transferir, já que o dinheiro só poderia servir para adquirir o que necessitasse a mais do que já era oferecido.
O dinheiro intransferível, sendo o objetivo a vida do espírito, não faltaria no essencial para a sobrevivência do corpo, mesmo ao irmão que na ignorância não entendesse a Lei do Trabalho para o progresso seu e de todos. Ao que se esforça existiria sempre a recompensa, mas ao que se nega a ser útil somente o mínimo necessário para a sobrevivência.
            Em “Nosso Lar” no capítulo 22 – “O Bônus-hora” – a organização do trabalho pela recompensa da hora trabalhada demonstra claramente uma organização socialista, fique claro, que é o socialismo de Jesus citado por Emmanuel no livro do próprio nome. O bônus-hora é uma forma de recompensa meritória pelo trabalho do coração, não quantificado em metas de produção ou no tempo forçado de ocupação. A felicidade está em trabalhar no que se deseja e no tempo que aprouver, quem possui a liberdade de escolha e o conhecimento da importância da função que executa, tendo as condições de sobrevivência quando na carne, não necessita da recompensa ilusória do metal que enferruja, já que a paga é a felicidade de ser útil que sente como recompensa ao espírito.
            Mas muitos aqui na terra, presos na carne, parecem cegos que caminham num deserto sem rumo. Procuram o lucro a qualquer preço, não importa se o dinheiro é adquirido no prejuízo de alguém, justificam as vantagens que possuem pela esperteza que alegam ter, procuram a riqueza na carne e contabilizam a miséria do espírito. No capítulo citado acima está escrito, o que a baixo é transcrito, com relação ao assunto:

A maioria dos homens encarnados está simplesmente ensaiando o espírito de serviço e aprendendo a trabalhar nos diversos setores da vida humana. Por isso mesmo, é imprescindível fixar as remunerações terrestres com maior atenção. Todo o ganho externo do mundo é lucro transitório. Vemos trabalhadores obcecados pela questão de ganhar, transmitindo fortunas vultosas à inconsciência e à dissipação; outros amontoam expressões bancárias que lhes servem de martírio pessoal e de ruína à família. Por outro lado, é indispensável considerar que setenta por cento dos administradores terrenos não pesam os deveres morais que lhes competem, e que a mesma porcentagem pode ser adjudicada a quantos foram chamados à subordinação. Vivem, quase todos, a confessar ausência do impulso vocacional, recebendo embora os proventos comuns aos cargos que ocupam. Governos e empresas pagam a médicos que se entregam à exploração de interesses outros e a operários que matam o tempo. Onde, aí, a natureza de serviço? Há técnicos de indústria econômica, que nunca prezaram integralmente a obrigação que lhes assiste e valem-se de leis magnânimas, à maneira de moscas venenosas no pão sagrado, exigindo abonos, facilidades e aposentadorias. Creia, porém, que todos pagarão muito caro a displicência.

            Não se pode servir a Deus e a Mamon, nem tão pouco servir a Cesar. Não se deve desprezar a moeda, e dela deve se usar com sabedoria. Nunca devemos ser o sovina, que se achando grandioso, despreza o pobre ruidoso que suplica uma alegria. Deve-se saber que neste mundo, quem acúmula riquezas da terra, não tem nada que possa levar consigo para uma nova vida que espera. E como diz Emmanuel no livro “Dinheiro”:

Caridade ensinada melhora os ouvidos.
Caridade praticada aprimora os corações.  
Dividir conscienciosamente os bens que retemos é sustentar a respeitabilidade humana.  
Renunciar, a benefício do próximo, será sempre elevar-se.  
Derramando os valores da própria alma, Jesus legou ao mundo os tesouros da Compreensão e da Paz.

Então, aprendamos a trabalhar com o dinheiro e não para ele.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O CASAMENTO EM NOSSO LAR

O homem e a mulher devem se completar e não competir por espaços que todos possuem. O homem é a aspereza do mundo e a mulher a beleza da delicadeza. A mulher é o equilíbrio do homem e este a segurança dela. Um não deve viver em rota de colisão com o outro, não deve existir a força bruta que machuca e nem a indiferença que maltrata. O lar deve ser o ambiente que ambos reponham suas forças para as lutas diárias.
O filme Nosso Lar, inspirado no livro de mesmo nome, mostrou de forma magnífica o mundo espiritual sob a visão de nosso amigo André Luiz. Mas o filme foi dedicado ao público leigo, pois o livro tem nuances tão polêmicas, que mesmo para o nosso tempo ainda são tabus que os idealizadores da produção cinematográfica não tiveram a coragem de tocar, ou inspirados por seres superiores foram orientados a não colocarem naquele momento.
Um destes pontos polêmicos é com relação à figura da mulher, ou seja, do espírito encarnada na situação do gênero feminino e a visão do casamento no relato do capítulo do “Caso Tobias”.
O casamento por algumas seitas do cristianismo primitivo, ligadas a um pensamento socialista, como os Cátaros, era visto como uma forma de propriedade inaceitável da mulher pelo homem. Eles acreditavam que o amor não precisava de amarras e que a propriedade privada, fruto do egoísmo, também estava representada na figura do casamento contratual, seja ele no religioso, ou modernamente falando, no conceito do direito civil.
O caso Tobias fala da relação terrena e espiritual com Luciana e Hilda, que no mundo dos espíritos vieram a habitar o mesmo lar espiritual. Na carne Hilda possuía um casamento feliz, de duas almas que se juntam para compartilhar uma vida de lutas em perfeita sintonia dos espíritos. Mas como desconhecemos os desígnios de Deus, Hilda desencarnou e inconformada ficou próxima aos seus depois de uma passagem pelo umbral. Tobias desnorteado e precisando do apoio necessário de uma alma na veste feminina, desposa Luciana, irmã dedicada que substitui a mãe ausente de dois filhos. O ciúme humano de Hilda e Luciana impede num primeiro momento de ver a benção de Deus, que na sua imensa sabedoria enviou uma irmã caridosa para ser o amparo moral como esposa do marido que sofre e a mãe dos filhos que estão órfãos. Mas com a interseção de um bom espírito, que fora avó de Hilda, o esclarecimento surge, e o veneno do ciúme é dissipado pelo antídoto do amor.
O sentimento de posse é umas das chagas da humanidade, que impede de ver a grandiosidade das ligações na carne entre os gêneros de espécie humana, e como diz Luciana:

(...) graças a Jesus e a ela, aprendi que há casamento de amor, de fraternidade, de provação, de dever, e, no dia em que Hilda me beijou, perdoando-me, senti que meu coração se libertara desse monstro que é o ciúme inferior. O matrimônio espiritual realiza-se, alma com alma, representando os demais simples conciliações indispensáveis à solução de necessidades ou processos retificadores, embora todos sejam sagrados.

         Mas qual a relação no lar entre a figura do espírito encarnado como homem ou mulher? Qual a ligação entre ambos?
No capítulo vinte – “Noções de Lar” – André pergunta à senhora Laura: Mas a organização doméstica, em "Nosso Lar", é idêntica à da Terra?
Dona Laura responde:

- O lar terrestre é que, de há muito, se esforça por copiar nosso instituto doméstico; mas os cônjuges por lá, com raras exceções, estão ainda a mondar o terreno dos sentimentos, invadido pelas ervas amargosas da vaidade pessoal, e povoado de monstros do ciúme e do egoísmo. Quando regressei do planeta, pela última vez, trazia, como é natural, profundas ilusões. Coincidiu, porém, que, na minha crise de orgulho ferido, fui levada a ouvir um grande instrutor, no Ministério do Esclarecimento. Desde esse dia, nova corrente de idéias me penetrou o espírito.
           
Sobre o orientador Dona Laura falou:

- O orientador, muito versado em matemática - prosseguiu ela -, fez nos sentir que o lar é como se fora um ângulo reto nas linhas do plano da evolução divina. A reta vertical é o sentimento feminino, envolvido nas inspirações criadoras da vida. A reta horizontal é o sentimento masculino, em marcha de realizações no campo do progresso comum. O lar é o sagrado vértice onde o homem e a mulher se encontram para o entendimento indispensável. É templo, onde as criaturas devem unir-se espiritual antes que corporalmente. Há na Terra, agora, grande número de estudiosos das questões sociais, que aventam várias medidas e clamam pela regeneração da vida doméstica. Alguns chegam a asseverar que a instituição da família humana está ameaçada. Importa considerar, entretanto, que, a rigor, o lar é conquista sublime que os homens vão realizando vagarosamente. Onde, nas esferas do globo, o verdadeiro instituto doméstico, baseado na harmonia justa, com os direitos e deveres legitimamente partilhados? Na maioria, os casais terrestres passam as horas sagradas do dia vivendo a indiferença ou o egoísmo feroz. Quando o marido permanece calmo, a mulher parece desesperada; quando a esposa se cala, humilde, o companheiro tiraniza. Nem a consorte se decide a animar o esposo, na linha horizontal de seus trabalhos temporais, nem o marido se resolve a segui-la no vôo divino de ternura e sentimento, rumo aos planos superiores da Criação. Dissimulam em sociedade e, na vida íntima, um faz viagens mentais de longa distância, quando o outro comenta o serviço que lhe seja peculiar. Se a mulher fala nos fílhinhos, o marido excursiona através dos negócios; se o companheiro examina qualquer dificuldade do trabalho, que lhe diz respeito, a mente da esposa volta ao gabinete da modista. É claro que, em tais circunstâncias, o ângulo divino não está devidamente traçado. Duas linhas divergentes tentam, em vão, formar o vértice sublime, a fim de construírem um degrau na escada grandiosa da vida eterna.

         E diz Laura logo a seguir:

O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências, e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem. Dentro de casa, a inspiração; fora dela, a atividade. Uma não viverá sem a outra. Como sustentar-se o rio sem a fonte, e como espalhar-se a água da fonte sem o leito do rio?

         Fica claro que o homem e a mulher devem se completar na terra, e que as ligações de amizade e afeto, devem superar as de propriedade. Nós espíritas sabemos que a condição de gênero é escolha individual, e que todos hora num ou em outro estado na matéria, cumpre sua missão de resgate e ou auxílio. Não deve haver dissensões entre o homem e a mulher, pois como as rosas, os espíritos são iguais, diferentes na forma, mas iguais na essência. O lar é o ambiente sagrado, onde se busca o equilíbrio de um verdadeiro sentimento cristão. Não deve haver disputa entre irmãos de jornada, então, que saibamos compreender que a união de almas é muito mais que a simples certificação cartorial e, que não é um homem terreno que dirá que os pares estarão unidos para sempre. Assim sendo, saibamos viver juntos e em paz.

terça-feira, 3 de maio de 2011

ESPIRITISMO O AGENTE DE RENOVAÇÃO SOCIAL

O espiritismo no Brasil parece um movimento de ex-católicos que deixaram a igreja, mas não as raízes de um pensamento supostamente apolítico, defendido hoje por alguns ditos pseudosábios da doutrina espírita.
            Kardec na Revista Espírita de 1863 afirma, com relação à evolução do espiritismo que:
O sexto e último período será o da renovação social, que abrirá a era do século vinte. Nessa época, todos os obstáculos à nova ordem de coisas queridas por Deus, para transformação da Terra, terão desaparecido; a geração que se levanta, imbuída de idéias novas, será toda a sua força, e preparará o caminho daquela que inaugurará o triunfo definitivo da união, da paz e da fraternidade entre os homens, confundidos numa mesma crença pela prática da lei evangélica. Assim serão verificadas as palavras do Cristo, que todas devem receber seu cumprimento, e das quais várias se cumprem nesta hora, porque os tempos preditos são chegados. Mas é em vão que, tomando a figura pela realidade, procureis os sinais no céu: estes sinais estão ao vosso lado e surgem de toda parte. (KARDEC, 1863)
            A renovação social inicia pela ação individual que têm reflexo no coletivo. A influência dos espíritos evoluídos, no sentido do auxílio desta transformação, parece ser forçosamente oculta pelos encarnados que não gostam de ouvir verdades e, escondem o lado transformador do espiritismo como agente de ação social.
            Em que casa espírita alguém falou que Emannuel é um severo crítico da igreja católica como algo que não representa mais o puro pensamento de Cristo. Leia o texto abaixo sobre o Vaticano:
O Vaticano, porém, não soube senão produzir obras de caráter exclusivamente material, tornando-se potência de poder e autoridade temporais. Afogou-se na vaidade, obtendo o que procurava, porquanto tem o seu império na Terra, que ainda não é o reino de Jesus. O seu fastígio, as suas suntuosas basílicas, as suas pomposas solenidades recordam o politeísmo e as dissipações da sociedade romana e, quando o sumo-pontífice aparece em vossos dias na sédia gestatória, é o retrato dos cônsules do antigo senado quando saiam a público, precedidos de litores. O símile é perfeito. (EMANNUEL, 1938)
            Vários são os irmãos que livre das ilusões do pensamento humano, e sedentos por conhecimento, percebem o desvio do caminho que os habitantes da terra teimam em trilhar. São espíritos que sabedores da opção da maioria dos habitantes da terra, não criticam com o intuito de humilhar, mas sim com a intenção de alerta no qual um pai orienta um filho, um professor guia um aluno e um ancião protege o mais jovem. Ser caridoso é também ser responsável com a verdade, e o que deve ser dito mesmo que mal compreendido, deve ser falado para que tenhamos um futuro melhor e um progresso mais rápido da humanidade no caminho dos passos de Jesus. Nilo Peçanha no livro “Palavras do Infinito”, dizia:
Se difícil e inoportuna se torna aos espíritos a ação de se imiscuir nos problemas atinentes à iniciativa necessária dos homens, nada os impede de oferecer aos que ficaram na liça, despendendo energias na mesma atividade que constituiu o característico de suas existências sobre a face da Terra, auxiliando assim aos que avançam pela estrada evolutiva, os cabedais de suas experiências, única riqueza que lhes ficou das temporalidades desse mundo. (PEÇANHA, 1935)
            O mundo espiritual percebe que a política perniciosa é uma prática corriqueira e, que os interesses individuais e do partidarismo são o foco principal dos governos humanos. O povo e seus clamores não são percebidos pelos ouvidos ocos dos que dizem trabalhar para ele.
[...] a política nacional infelizmente não vem encarando as suas obrigações austeras como se faz mister. No letargo que os poderes da fôrça propiciam, ouvindo empolgada os cantos de sereia do partidarismo e do individualismo perniciosos, vem olvidando os seus máximos deveres, as suas obrigações mais sagradas. (PEÇANHA, 1935)
            O Brasil vem copiando e adaptando fórmulas de sistemas políticos que não são constituídos para a realidade nacional. O povo brasileiro possui características únicas, percebidas, por exemplo, pela sua rica miscigenação de caracteres humanos e não de raça, pois só existe uma única raça, a humana. Também possuímos a característica de um povo que respeita dentro de sua capacidade evolutiva, o livre arbítrio do direito da escolha do culto religioso. Sistemas políticos importados de países com realidade diversa, somente podem trazer as dissensões num povo que deve ser unido.
O nosso país já atravessou o período em que se tornava mister a tradução e a adaptação dos costumes e leis alheias. Faz-se preciso encarar as nossas necessidades de perto, sem as imitações burlescas dos países que instauraram o governo forte pós-guerra e do comunismo que a Rússia se habituou a fabricar apenas para a exportação.(PEÇANHA, 1935)
            Talvez se pense que o que foi dito acima está ultrapassado, mas o que dizer de programas de governo que copiam ideários de um suposto neoliberalismo, que não foi idealizada e nem pensado para o Brasil. Da mesma forma podemos dizer: como pensar um comunismo materialista, seja ele, Chinês, Cubano ou da antiga União soviética, se são povos tão diferentes do nosso. Precisamos sim, a partir do exemplo de Jesus, procurar um modelo puramente nacional que veja um Brasil para os brasileiros e um país que seja um luzeiro para mundo.
            A ignorância é a forma de domínio do explorador, do hipócrita que muitas vezes se identifica como seguidor de cristo, mas que para ele o único próximo que interessa são os próximos mais próximos (família carnal) quando não somente a si mesmo.
            Jean Jaure, político francês, já dizia que o socialismo nasce dentro do indivíduo, não é imposto de cima para baixo, de uma estrutura de governo para a base que é o povo. O socialismo de Jesus só pode ser construído pelo povo. Não adianta criar leis sem o amparo do anseio popular, visto que, somente poderão ser aplicadas pela força, ou seja, terão já uma origem deturpada.
Acima de tudo é necessário estudar-se uma das mais importantes questões de psicologia política. Faz-se preciso interessar as classes, captar a adesão do povo a essas leis, seduzir as massas com a exposição dos seus altos benefícios. Todos os regulamentos e leis criados para o povo tornam-se desnecessários desde que se não saiba interessá-lo, desprezando desse modo o largo potencial de suas energias para a sua perfeita execução. As leis estiolam-se e desaparecem quando não são bafejadas pela homologação popular. (PEÇANHA, 1935)
            Podemos pensar que a solução para os problemas sociais do Brasil estariam nos que se intitulam participantes dos “novos partidos”. Mas estes novos partidos são braços de antigos, pernas e corpo que sem uma cabeça nova cambaleiam procurando um rumo, mas que possuem na ação reflexa os mesmos defeitos do partido antigo que é a semente caída entre os espinhos.
Faz-se necessário melhorar as, condições das classes operárias antes que elas se recordem de o fazer, segundo as suas próprias deliberações, entregando-se à sanha de malfeitores que sob as máscaras da demagogia e a pretexto de reivindicações, vivem no seu seio para explorar-lhes os entusiasmos vibrantes que se exteriorizam sem objeto definido. A maioria das nossas realidades por enquanto estão dentro dos problemas da assistência social, descurada por grande parte dos governantes. Os que vivem preconizando os partidos novos, apregoando o mesmo faciosismo de sempre, se esquecem de que a nação precisa antes de tudo do livro e da higiene, das obras de assistência sob todos os seus aspectos. (PEÇANHA, 1935)
            Mas nem tudo está perdido, pois existem ainda os que insistem numa boa política para os homens. São pessoas que sofrem a convivência com os seres oportunistas, que preferem as vantagens pessoais ao invés de serem úteis agentes de transformação da terra. E estes bons políticos, na maioria das vezes, são os que perdem aqui na terra, mas como falou Jesus aos discípulos:
Se alguém me quiser seguir, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á. Pois de que aproveitará ao homem, se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? (Marcos, VIII: 34-36; Mateus, X: 39, e João, XII: 24-25).
            Existe um ditado que diz que cada povo tem o governo que merece, e em minha opinião é um dos ditados mais corretos do mundo no sentido da ação política. Um mal político necessita do apoio de seres que vibrem igual a ele, pois se em nosso coração realmente quiséssemos algo de bom para nós e nossos irmãos, o mal não teria condição alguma de atuar no seio de um povo que está orientado na direção da luz de Jesus.
Infelizmente tivemos a fraqueza de nos apaixonarmos pelas teorias sonoras, acalentando os homens palavrosos, conduzindo-os aos poderes públicos, endeusando-os, incensando-os com a nossa injustificável admiração, olvidando homens de ação, de energia, que aí vivem isolados, corridos dos gabinetes da administração nacional, em virtude de sua inadaptabilidade às lutas da política do oportunismo e das longas fileiras do afilhadismo que vem constituindo a mais dolorosa das calamidades públicas do Brasil. Precisávamos para a solução de nossos problemas mais urgentes, não de copiar artigos e regras burocráticas, mas firmar pensamentos construtores, que renovassem os nossos institutos de ordem social e política, hoje seriamente ameaçados em suas bases, justamente pelo descaso e inércia com que observamos as exposições das teorias falsas e errôneas para a esfera do governo, as quais infiltrando-se no âmago das coletividades, preparam os surtos dos arrasamentos. (PEÇANHA, 1935)
            A sociedade brasileira pode ser o agente da mudança e, para tanto só precisa abdicar do egoísmo inerente aos interesses de classe, sejam oriundas do proletariado ou não. Os espíritos só possuem uma classe, a de filhos de Deus, e todos encarnados e desencarnado fazem parte dela.
Seria ideal que os brasileiros se unissem para a cruzada bendita do reerguimento da nacionalidade, conscientes de seu valor próprio, prescindindo as influências estrangeiras, realizando, construindo a pátria de amanhã, cujo futuro promissor constitui uma larga esperança para a Humanidade. Do próprio Nordeste, cheio de flagelados e desiludidos, poder-se-ia fazer um oásis. Aí temos os homens do pensamento e da ação, realizadores práticos, corajosos, que atacariam, de pronto, os problemas maia fortes de nossa economia, preservando-a, metodizando-a para o bem-estar da nação. Mas onde se conservam essas criaturas do sentimento e do raciocínio que as melhores capacidades caracterizam? Justamente, quase todos, por nossa infelicidade, se conservam afastados da paixão política que empolga a generalidade dos nossos homens públicos; com algumas exceções, a nossa política administrativa, infelizmente, está cheia daqueles que apenas se aproveitam da situação, para os favores pessoais e para as condenáveis pretensões dos indivíduos. O sentimento da solidariedade das classes, do amparo social, que deveriam constituir as vigas mestras de um instituto de governo, são relegados para um plano inferior, a fim de que se saliente o partido, a pretensão, o chefe, a figura centralizadora de cada um, em desprestígio de todos. (PEÇANHA, 1935)
            Os espíritas e todos que se dizem seguidores de Jesus têm a obrigação de agirem para a mudança da sociedade humana. Quem não faz o bem o mal já está fazendo, a neutralidade não é a característica de um verdadeiro cristão e espírita. Podemos não gosta de como vem sendo conduzido às rédeas deste mundo, pelos os que julgamos ignorantes, mas também devemos perceber que só vemos no outro o que ainda temos em nós mesmo, então, se queremos um novo tempo para todos, devemos sair do nosso ostracismo consentido e ver que ser espíritas é também cuidar e lutar por um mundo encarnado inspirado na caridade de Cristo. Os tímidos não herdarão o Reino do Céu... O Reino do Céu também pode ser aqui na terra. E como diz no Livro dos Espíritos, questão 932:
Por que, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons?
“Por  fraqueza  destes. Os maus  são  intrigantes  e  audaciosos,  os  bons  são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão.”
            Não sejamos tímidos então!


Referências:
PEÇANHA, Nilo (Esp.). Democracia - Fascismo - Comunismo duas mensagens de Nilo Peçanha sobre o momento político brasileiro In: CAMPUS, Humberto de (Esp.). Palavras do Infinito, 1935.
EMMANUEL (Esp.). Emmanuel. 1938. Disponível em: <http://www.bvespirita.com/Emmanuel%20(psicografia%20Chico%20Xavier%20-%20esp%C3%ADrito%20Emmanuel).pdf> Acesso em: 06 abr. 2011.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. 1863.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

A HIPOCRISIA SEGUNDO LAMENNAIS

            Félicité Robert de Lamennais é um grande pensador humanista e espírita. Ativo participante na codificação espírita, a partir da sua atuação como espírito, também possui várias contribuições na Revista Espírita nos anos de 1860 a 1868. Suas obras ingressaram no Índex dos livros proibidos da igreja católica.
            Em 1834, Lamennais publica a obra lírica “Paroles d’um croyant” (Palavras de um que crê). No Brasil a obra é publicada com o nome de “Palavras de um Crente”. A edição brasileira contém também: O livro do povo (Le livre du peuple, 1838); A escravidão moderna (L'esclavage moderne, 1839) e Do passado e do futuro do povo (Du passé et de l'avenir du peuple, 1841). Quem tem o privilégio de ler suas obras percebe claramente o pensar espírita. Pode-se dizer que Lamennais já era espírita antes mesmo de Kardec ter idealizado está palavra.
            Na Revista Espírita Lamennais teve ampla participação, que a partir deste artigo iremos apresentar. Tentarei respeitar a ordem cronológica da Revista Espírita, mas a prioridade é focar o Pensamento Social Espírita.

A hipocrisia
(Médium, Sr. Didier filho.)
Deveria haver, sobre a Terra, dois campos bem distintos: os homens que fazem o bem abertamente e aqueles que fazem o mal abertamente. Oh bem! Não. O homem não é mesmo franco no mal; ele aparenta a virtude. Hipocrisia! Hipocrisia! Deusa poderosa, quantos tiranos elevaste! Quantos ídolos fizeste adorar! O coração do homem é verdadeiramente muito estranho, uma vez que pode bater estando morto, uma vez que pode amar em aparência a honra, a virtude, a verdade, a caridade! O homem, cada dia, se prosterna diante dessas virtudes, e cada dia ele falta com a palavra, cada dia despreza o pobre e o Cristo; cada dia ele mente, cada dia ele é falso! Quantos homens parecem honestos pela aparência que freqüentemente engana! Cristo chamava-os sepulcros brancos, quer dizer, a podridão por dentro, o mármore por fora brilhando ao sol. Homem! Tu pareces efetivamente com essa morada da morte, e enquanto teu coração estiver morto, Jesus não o inspirará mais; Jesus, esta luz divina que não clareia exteriormente, mas que ilumina interiormente.
A hipocrisia é o vício da vossa época, entendei-o bem; e quereis vos fazer grandes pela hipocrisia! Em nome da liberdade, vos engrandeceis; em nome da moral vos embruteceis; em nome da verdade, mentis. 
LAMENNAIS.
Dissertações Espíritas
Revista Espírita, outubro de 1860
Obtidas ou lidas na Sociedade por diversos médiuns.

            Os espíritas como seguidores de Jesus e de um cristianismo primitivo devem se ater a responsabilidade de seus atos. Dentro da regra do amar o próximo como a si mesmo, como justificar o pensamento capitalista, quando ser um capitalista é explorar o irmão, lucrar com o prejuízo dele. Tamanha hipocrisia pode existir num espírita-cristão? Até quando seremos o sepulcro branco?
           


domingo, 24 de abril de 2011

Kardec e Karl Marx

Quem tiver curiosidade suficiente poderá fazer uma procura em sites de busca e encontrará um texto que fala do encontro ocorrido entre Marx e Kardec. A tese é defendida pelo pesquisador espírita Sr. Clóvis Nunes.
            Dedico parte do meu tempo a pesquisa da sociologia espírita, na procura de um entendimento de como se opera a relação do mundo espiritual com o mundo da matéria bruta onde se manifesta o espírito encarnado. Neste estudo percebi que nós encarnados é que temos a responsabilidade direta sobre a matéria densa que afeta as relações sociais inerentes a vida efêmera no planeta. Recebemos a influência dos irmãos desencarnados, mas somente nós possuímos a capacidade de atuar sobre a matéria no planeta.
As ideias dão forma a matéria e a razão diz que não pode a criatura superar o criador, ou seja, a matéria não deve dominar o espírito. Portanto, cabe a nós, como espíritos espíritas e, conhecedores da verdade, entender a importância da influência do mundo dos espíritos em nossa vida, compreender que estamos sempre recebendo a ajuda dos irmãos libertos da prisão da carne, que nos auxiliam na compreensão do que realmente importa para a nossa evolução moral e, por consequência da sociedade humana que nos inserimos como espíritos encarnados.
            Karl Marx cumpre um papel importante na evolução da sociedade humana rumo ao progresso, progresso que passa por um período de domínio do materialismo, da ganância, em que um irmão explora o outro com objetivo da satisfação das paixões da carne. Karl Marx percebe este momento, mas devido à aproximação da Igreja Católica com os interesses da política humana, Marx de forma hábil preconizou um “socialismo materialista”, onde a presença de Jesus não pôde ser realçada devido à ligação errônia da Igreja moderna com o Estado capitalista.
O “socialismo científico” é materialista, pois um socialismo sem Jesus é algo vazio, que se esfacela com o tempo, algo já demonstrado na prática pela ruína da antiga União Soviética.
            O socialismo defendido pela sociologia espírita é de cunho puramente humanista, tendo como base a vida e exemplo de Jesus e a dos primeiros apóstolos. E não queiram dizer alguns que a realidade atual é diferente, que não podemos nos basear na vida dos apóstolos para defender uma mudança no mundo, pois se assim o fizermos teremos que afirmar que Jesus também está ultrapassado, o que não é verdade, pois nem perto moralmente nos aproximamos Dele.
Marx conhecia o assunto, certamente leu o “Atos dos Apóstolos”, mas queria romper com a Igreja Católica – ou qualquer religião humana – que justificasse a exploração do homem como sendo um carma, a vontade de Deus ou algo necessário para uma recompensa futura depois da morte. Como diz Jacob Holzmann Netto, no livro Espiritismo e Marxismo:

O desejo de emancipar o homem da escravidão econômica, a fim de alçá-lo à condição de cidadão livre e enobrecido pela nova ética do trabalho, levou Marx a bosquejar um homem sem implicações com o espiritual e o eterno. Crendo que o espírito representava um entrave para o advento de uma sociedade sem classes, porque tanto o filósofo idealista quanto o religioso sufocavam as reivindicações dos oprimidos ao falar-lhes de uma hipotética felicidade ultraterrena, com o que legitimavam a indiferença e o egoísmo dos opressores, o autor de "O Capital" preferiu matar o homem espiritual e suas poéticas esperanças de recompensa no mais além, atendo-se tão somente à realidade das coisas objetivas, e concebeu um homem material, cujo destino não ultrapassa sua morte física.

O espiritismo entende que o futuro da humanidade é o socialismo, e vários livros psicografados, como “Violetas na Janela” e “Nosso Lar”, mostram na organização política da cidade espiritual a ausência da propriedade privada e da recompensa do pagamento pelo trabalho realizado. O pagamento no mundo espiritual quando necessário – para os que ainda possuem a mentalidade do encarnado-materialista – é feito pelo “bônus hora”, uma moeda intransferível e que não tem valor de troca, algo que impede a acumulação e a exploração do irmão, pois não existe trabalho que alguém solicite a outro ou receba deste, que possa ser remunerado de forma interpessoal, como na atualidade em nosso planeta.
            Marx faz o rompimento necessário com Estado capitalista e a Igreja, para que possa rascunhar um “socialismo livre” da influência de ambos, o que é um grande passo rumo ao “socialismo cristão do porvir” ou “socialismo de Jesus”, que nos fala Emmanuel no livro “Emmanuel”:

A estabilidade da Civilização Ocidental, sua evolução para o socialismo de Jesus, dependiam da fidelidade da Igreja Católica aos princípios cristãos.
Mas, a Igreja negou-se ao cumprimento de sua grandiosa missão espiritual e o resultado temo-lo na desesperação das almas humanas, em face dos problemas transcendentes da vida.

Marx foi alguém com a tarefa necessária e antecipada para a futura implantação do “socialismo de Jesus”, e isto é percebido através do relato dos espíritos na data de 30 de abril de 1856:

"Quando o grande sino soar, vós o deixareis; somente aliviareis o vosso semelhante; individualmente, o magnetizareis, a fim de curá-lo. Depois, cada um preparado no seu posto, porque será necessário de tudo, uma vez que tudo será destruído, sobretudo por um instante. Não haverá mais religião, e dela será necessária uma, mais verdadeira, grande, bela e digna do Criador... Os seus primeiros fundamentos já estão colocados... Tu, Rivail, a tua missão aí está. (Livre, a cesta retornou para o meu lado, como o faria uma pessoa que quisesse me designar com o dedo.) A ti, Sr... a espada que não fere, mas que mata; contra tudo o que é, serás tu que virás primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo: é o obreiro que reconstrói o que foi demolido."

O Sr. M..., que assistia a essa reunião, era um jovem homem de opiniões as mais radicais, comprometido nos assuntos políticos, e que era obrigado a não se colocar muito em evidência. Crendo num transtorno próximo, se preparava para nele tomar parte, e combinava os seus planos de reforma; era, de resto, um homem agradável e inofensivo. (KARDEC, Allan. Obras Póstumas: Primeira revelação de minha missão)

            Em 12 de maio de 1856, em sessão pessoal na casa do Baudin, Kardec pergunta:
Pergunta . (À Verdade). . Que pensais do Sr. M.? É um homem que terá influência nos acontecimentos?
Resposta. . De muito ruído. Ele tem boas idéias; é um homem de ação, mas não é uma inteligência.
Perg. . É preciso tomar ao pé da letra o que foi dito, que lhe cabia o papel de destruir o que existe?
Resp. . Não, quis personificar nele o partido do qual representa as idéias.
Perg. . Posso manter relações de intimidade com ele?
Resp. . Não para o momento; correrias perigos inúteis.

            Em “Obras póstumas” Kardec demonstra conhecer o Sr. M, mas se este senhor é Karl Marx, isto é uma incógnita. O pesquisador Clóvis Nunes afirma que Marx freqüentava reuniões espíritas e, portanto, seria perfeitamente possível que o Sr. M citado seja Marx, já que no livro “O Capital, volume I – no título 4. O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo”, Karl Marx torna evidente o seu conhecimento das reuniões espíritas, leia o texto a baixo do referido capítulo:

À primeira vista, a mercadoria parece uma coisa trivial, evidente. Analisando-a, vê-se que ela é uma coisa muito complicada, cheia de sutileza metafísica e manhas teológicas. Como valor de uso, não há nada misterioso nela, quer eu a observe sob o ponto de vista de que satisfaz necessidades humanas pelas suas propriedades, ou que ela somente recebe essas propriedades como produto do trabalho humano. É evidente que o homem por meio de sua atividade modifica as formas das matérias naturais de um modo que lhe é útil. A forma da madeira, por exemplo, é modificada quando dela se faz uma mesa. Não obstante, a mesa continua sendo madeira, uma coisa ordinária física. Mas logo que ela aparece como mercadoria, ela se transforma numa coisa fisicamente metafísica. Além de se pôr com os pés no chão, ela se põe sobre a cabeça perante todas as outras mercadorias e desenvolve de sua cabeça de madeira cismas muito mais estranhas do que se ela começasse a dançar por sua própria iniciativa. 110

            Kardec e Karl Marx são contemporâneos e a cada um coube a sua missão. No espiritismo acreditamos numa dialética não materialista e que a evolução humana é constante e progressiva. Para que no futuro a humanidade abandone o egoísmo caracterizado pelos sistemas políticos materialistas, são necessários períodos de transição, como o marcado pelo pensamento marxista, já que não pode existir a mudança abrupta de uma realidade social materialista para outra mais humanista sem a ruptura de paradigmas. Neste sentido é que inicia a influência do pensamento social espírita. Marx antecede Kardec como já fora dito pelos espíritos e, Kardec é que reconstruíra o que foi demolido, ou melhor dizendo, o espiritismo reconstruíra.
           
A ti, Sr... a espada que não fere, mas que mata; contra tudo o que é, serás tu que virás primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo: é o obreiro que reconstrói o que foi demolido.”

GUERRA, JUDAS E OS VERDADEIROS TRAÍDORES DE JESUS

*Alexandre Luís de Souza Nunes
Quantas vezes o nosso coração arde em fogo ao ver as reações humanas com relação ao semelhante. Por não sermos perfeitos, e trazermos recordações de um passado, algumas vezes, certamente sangrento, nosso corpo treme e nosso coração ferve ao vermos os gritos da guerra vislumbrados no horizonte. Mas cada caso é um caso, e nem todos os seres sentem os gritos da guerra como algo que clama em seu interior. Estes gritos, por vezes, nos fazem posicionar a favor de um ou outro lado num conflito bélico, em que na realidade não existe lado certo, já que em uma guerra a maioria perde, e somente aquele que consegue em meio ao ódio dar sinais de misericórdia é que realmente pode se considerar vencedor.
            O amor pode causar a dor quando mal compreendido as agruras que o ser humano encarnado esta suscetível. Quantos faliram em suas missões por entenderem que a partir de suas ações poderiam modificar o mundo. Nossa história esta repleta de seres que em nome da justiça, e sem compreender a justiça divina, cometeram atos de ignomínia pensando estarem de acordo com o pensamento de Deus, ou o que faziam, sendo bom para eles, seria bom também para o irmão.
            Judas Iscariotes é um dos primeiros exemplos do ser, que iludido pelo amor ao seu próximo, cometeu um erro, o de julgar que Jesus teria o pensar igual ao dele. Não foi a maldade que fez o ato consumado, mas um pensar de amor, no sentido de querer a liberdade de seu povo do julgo do opressor romano.
Este é o mesmo sentimento que hoje anima vários corações com relação aos Estados ditos opressores, quando não procuramos compreender a realidade de que, o que pode ser injusto aos nossos olhos, somente é a lei da ação e reação agindo tão habilmente.
            Quando entramos no campo vibratório dos que somente possuem a prioridade de defender seus próprios interesses, podemos confundir nosso pensar e sermos instrumento de concretização de objetivos mesquinhos. Num primeiro momento nos iludimos, achando que somos detentores do controle das rédeas da história e, que podemos num ambiente da política perniciosa ser a luz em meio às trevas. Muitas vezes não percebemos que nossa pequena luz pode ser cercada pela escuridão e, que o brilho que julgamos ter somente serve para cegar nossos próprios olhos, não ofuscando ninguém mais que a nós mesmos. Judas cometeu este erro. Julgou o semelhante por si mesmo, não compreendeu a missão do Mestre e achou que Jesus poderia mudar o coração dos “homens de poder” em seu tempo. No livro “Palavras do Infinito”, psicografado por Chico, “Humberto de Campos” nos fala de uma entrevista – sob a curiosidade do repórter que era – que fez com o próprio Judas na cidade de Jerusalém. De forma educada Humberto pergunta se realmente Judas foi um traidor, leia:
(Humberto pergunta) - É uma verdade tudo quanto reza o Novo Testamento com respeito à sua personalidade na tragédia da condenação de Jesus?
- Em parte... Os escribas que redigiram os evangelhos não atenderam às circunstâncias e às tricas políticas que acima dos meus atos predominaram na nefanda crucificação. Pôncio Pilatos e o tetrarca da Galiléia, além dos seus interesses individuais na questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estado romano, empenhado em satisfazer as aspirações religiosas dos anciãos judeus. Sempre a mesma história. O Sanedrim desejava o reino do céu pelejando por Jeová, a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra. Jesus estava entre essas forças antagônicas com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos apaixonados pelas idéias socialistas do Mestre, porém o meu excessivo zelo pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via a política, única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória. Com as suas teorias nunca poderia conquistar as rédeas do poder já que, no seu manto de pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade. Planejei então uma revolta surda como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um chefe de Estado. O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma obra vasta e enérgica como a que fez mais  tarde Constantino Primeiro, o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que aliás apenas serviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre, a Caifás, não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos.
            Nos dias atuais, quando ouvimos os discursos inflamados do ódio, em que uns se julgam capazes de julgar os outros, no qual o mais forte oprime o mais fraco pela força das armas, não devemos compactuar com a guerra. Poderemos dizer que o forte tem a obrigação de defender o mais fraco, e isto é uma verdade, mas como dizia Tolstoi, Gandhi e outros grandes espíritos quando encarnados, devemos “resistir à violência, mas não com a violência”, e neste sentido a guerra é a arma deles não a nossa.
            Atrás de todo ato de guerra existe os mesmos interesses de sempre, e como diz Judas é “sempre a mesma história”. História que se repete, porque insistimos em cometer os mesmos erros. O próprio Judas quando encarnado como Joana Darc, sentiu na carne o gosto amargo do fel da traição. A libertação da França, iniciada com Joana, é mais um fato no espiritismo-histórico-dialético de um conflito que poderia ser evitado, mas que os seres humanos ainda escolheram a Lei da Destruição ao invés da Lei do Amor para mudar a sua realidade. Sempre temos escolha, não existe guerra feita por um homem só, alguém manda, mas muitos executam e, todos são os responsáveis.
            A guerra não é um ato de trair Jesus? Qual seguidor de cristo pode justificar a mortandade sem ser um verdadeiro traidor Dele?
            Judas deixa bem claro que os traidores de Cristo, hoje, são aqueles que a custa do “ouro” vendem e comercializam a vida dos seus irmãos. Judas diz:
Em todas as homenagens a Ele prestadas, eu sou sempre a figura repugnante do traidor... Olho complacentemente os que me acusam sem refletir se podem atirar a primeira pedra... Sobre o meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios cheios de miséria e de infortúnio. Pessoalmente, porém, estou saciado de justiça, porque já fui absolvido pela minha consciência no tribunal dos suplícios redentores.
Quanto ao Divino Mestre – continuou Judas com os seus prantos – infinita é a sua misericórdia e não só para comigo, porque se recebi trinta moedas, vendendo-O aos seus algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo a grosso e a retalho, por todos os preços em todos os padrões do ouro amoedado...
- É verdade – concluí – e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-LO.
            O próprio Humberto pergunta a um ancião que chama de mestre no mundo espiritual:
E, sobretudo Mestre, é a perspectiva horrorosa da guerra... Não há tranqüilidade e a Terra parece mais um fogareiro imenso, cheio de matérias em combustão...
Mas o bondoso espírito-ancião me respondeu com humildade e brandura:
- Meu filho... Esquece o mundo e deixa o homem guerrear em paz!...
Achei graça no seu paradoxo, porém só me resta acrescentar:
- Deixem o mundo em paz com a sua guerra e a sua indiferença!
Não será minha boca quem vá soprar na trombeta de Josafá. Cada um guarde aí a sua crença ou o seu preconceito.  
Recebida em Pedro Leopoldo a 23 de abril de 1935.
           
Realmente, deixemos o mundo em paz com a sua guerra.

* Pensador Espírita