domingo, 24 de abril de 2011

Kardec e Karl Marx

Quem tiver curiosidade suficiente poderá fazer uma procura em sites de busca e encontrará um texto que fala do encontro ocorrido entre Marx e Kardec. A tese é defendida pelo pesquisador espírita Sr. Clóvis Nunes.
            Dedico parte do meu tempo a pesquisa da sociologia espírita, na procura de um entendimento de como se opera a relação do mundo espiritual com o mundo da matéria bruta onde se manifesta o espírito encarnado. Neste estudo percebi que nós encarnados é que temos a responsabilidade direta sobre a matéria densa que afeta as relações sociais inerentes a vida efêmera no planeta. Recebemos a influência dos irmãos desencarnados, mas somente nós possuímos a capacidade de atuar sobre a matéria no planeta.
As ideias dão forma a matéria e a razão diz que não pode a criatura superar o criador, ou seja, a matéria não deve dominar o espírito. Portanto, cabe a nós, como espíritos espíritas e, conhecedores da verdade, entender a importância da influência do mundo dos espíritos em nossa vida, compreender que estamos sempre recebendo a ajuda dos irmãos libertos da prisão da carne, que nos auxiliam na compreensão do que realmente importa para a nossa evolução moral e, por consequência da sociedade humana que nos inserimos como espíritos encarnados.
            Karl Marx cumpre um papel importante na evolução da sociedade humana rumo ao progresso, progresso que passa por um período de domínio do materialismo, da ganância, em que um irmão explora o outro com objetivo da satisfação das paixões da carne. Karl Marx percebe este momento, mas devido à aproximação da Igreja Católica com os interesses da política humana, Marx de forma hábil preconizou um “socialismo materialista”, onde a presença de Jesus não pôde ser realçada devido à ligação errônia da Igreja moderna com o Estado capitalista.
O “socialismo científico” é materialista, pois um socialismo sem Jesus é algo vazio, que se esfacela com o tempo, algo já demonstrado na prática pela ruína da antiga União Soviética.
            O socialismo defendido pela sociologia espírita é de cunho puramente humanista, tendo como base a vida e exemplo de Jesus e a dos primeiros apóstolos. E não queiram dizer alguns que a realidade atual é diferente, que não podemos nos basear na vida dos apóstolos para defender uma mudança no mundo, pois se assim o fizermos teremos que afirmar que Jesus também está ultrapassado, o que não é verdade, pois nem perto moralmente nos aproximamos Dele.
Marx conhecia o assunto, certamente leu o “Atos dos Apóstolos”, mas queria romper com a Igreja Católica – ou qualquer religião humana – que justificasse a exploração do homem como sendo um carma, a vontade de Deus ou algo necessário para uma recompensa futura depois da morte. Como diz Jacob Holzmann Netto, no livro Espiritismo e Marxismo:

O desejo de emancipar o homem da escravidão econômica, a fim de alçá-lo à condição de cidadão livre e enobrecido pela nova ética do trabalho, levou Marx a bosquejar um homem sem implicações com o espiritual e o eterno. Crendo que o espírito representava um entrave para o advento de uma sociedade sem classes, porque tanto o filósofo idealista quanto o religioso sufocavam as reivindicações dos oprimidos ao falar-lhes de uma hipotética felicidade ultraterrena, com o que legitimavam a indiferença e o egoísmo dos opressores, o autor de "O Capital" preferiu matar o homem espiritual e suas poéticas esperanças de recompensa no mais além, atendo-se tão somente à realidade das coisas objetivas, e concebeu um homem material, cujo destino não ultrapassa sua morte física.

O espiritismo entende que o futuro da humanidade é o socialismo, e vários livros psicografados, como “Violetas na Janela” e “Nosso Lar”, mostram na organização política da cidade espiritual a ausência da propriedade privada e da recompensa do pagamento pelo trabalho realizado. O pagamento no mundo espiritual quando necessário – para os que ainda possuem a mentalidade do encarnado-materialista – é feito pelo “bônus hora”, uma moeda intransferível e que não tem valor de troca, algo que impede a acumulação e a exploração do irmão, pois não existe trabalho que alguém solicite a outro ou receba deste, que possa ser remunerado de forma interpessoal, como na atualidade em nosso planeta.
            Marx faz o rompimento necessário com Estado capitalista e a Igreja, para que possa rascunhar um “socialismo livre” da influência de ambos, o que é um grande passo rumo ao “socialismo cristão do porvir” ou “socialismo de Jesus”, que nos fala Emmanuel no livro “Emmanuel”:

A estabilidade da Civilização Ocidental, sua evolução para o socialismo de Jesus, dependiam da fidelidade da Igreja Católica aos princípios cristãos.
Mas, a Igreja negou-se ao cumprimento de sua grandiosa missão espiritual e o resultado temo-lo na desesperação das almas humanas, em face dos problemas transcendentes da vida.

Marx foi alguém com a tarefa necessária e antecipada para a futura implantação do “socialismo de Jesus”, e isto é percebido através do relato dos espíritos na data de 30 de abril de 1856:

"Quando o grande sino soar, vós o deixareis; somente aliviareis o vosso semelhante; individualmente, o magnetizareis, a fim de curá-lo. Depois, cada um preparado no seu posto, porque será necessário de tudo, uma vez que tudo será destruído, sobretudo por um instante. Não haverá mais religião, e dela será necessária uma, mais verdadeira, grande, bela e digna do Criador... Os seus primeiros fundamentos já estão colocados... Tu, Rivail, a tua missão aí está. (Livre, a cesta retornou para o meu lado, como o faria uma pessoa que quisesse me designar com o dedo.) A ti, Sr... a espada que não fere, mas que mata; contra tudo o que é, serás tu que virás primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo: é o obreiro que reconstrói o que foi demolido."

O Sr. M..., que assistia a essa reunião, era um jovem homem de opiniões as mais radicais, comprometido nos assuntos políticos, e que era obrigado a não se colocar muito em evidência. Crendo num transtorno próximo, se preparava para nele tomar parte, e combinava os seus planos de reforma; era, de resto, um homem agradável e inofensivo. (KARDEC, Allan. Obras Póstumas: Primeira revelação de minha missão)

            Em 12 de maio de 1856, em sessão pessoal na casa do Baudin, Kardec pergunta:
Pergunta . (À Verdade). . Que pensais do Sr. M.? É um homem que terá influência nos acontecimentos?
Resposta. . De muito ruído. Ele tem boas idéias; é um homem de ação, mas não é uma inteligência.
Perg. . É preciso tomar ao pé da letra o que foi dito, que lhe cabia o papel de destruir o que existe?
Resp. . Não, quis personificar nele o partido do qual representa as idéias.
Perg. . Posso manter relações de intimidade com ele?
Resp. . Não para o momento; correrias perigos inúteis.

            Em “Obras póstumas” Kardec demonstra conhecer o Sr. M, mas se este senhor é Karl Marx, isto é uma incógnita. O pesquisador Clóvis Nunes afirma que Marx freqüentava reuniões espíritas e, portanto, seria perfeitamente possível que o Sr. M citado seja Marx, já que no livro “O Capital, volume I – no título 4. O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo”, Karl Marx torna evidente o seu conhecimento das reuniões espíritas, leia o texto a baixo do referido capítulo:

À primeira vista, a mercadoria parece uma coisa trivial, evidente. Analisando-a, vê-se que ela é uma coisa muito complicada, cheia de sutileza metafísica e manhas teológicas. Como valor de uso, não há nada misterioso nela, quer eu a observe sob o ponto de vista de que satisfaz necessidades humanas pelas suas propriedades, ou que ela somente recebe essas propriedades como produto do trabalho humano. É evidente que o homem por meio de sua atividade modifica as formas das matérias naturais de um modo que lhe é útil. A forma da madeira, por exemplo, é modificada quando dela se faz uma mesa. Não obstante, a mesa continua sendo madeira, uma coisa ordinária física. Mas logo que ela aparece como mercadoria, ela se transforma numa coisa fisicamente metafísica. Além de se pôr com os pés no chão, ela se põe sobre a cabeça perante todas as outras mercadorias e desenvolve de sua cabeça de madeira cismas muito mais estranhas do que se ela começasse a dançar por sua própria iniciativa. 110

            Kardec e Karl Marx são contemporâneos e a cada um coube a sua missão. No espiritismo acreditamos numa dialética não materialista e que a evolução humana é constante e progressiva. Para que no futuro a humanidade abandone o egoísmo caracterizado pelos sistemas políticos materialistas, são necessários períodos de transição, como o marcado pelo pensamento marxista, já que não pode existir a mudança abrupta de uma realidade social materialista para outra mais humanista sem a ruptura de paradigmas. Neste sentido é que inicia a influência do pensamento social espírita. Marx antecede Kardec como já fora dito pelos espíritos e, Kardec é que reconstruíra o que foi demolido, ou melhor dizendo, o espiritismo reconstruíra.
           
A ti, Sr... a espada que não fere, mas que mata; contra tudo o que é, serás tu que virás primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo: é o obreiro que reconstrói o que foi demolido.”

GUERRA, JUDAS E OS VERDADEIROS TRAÍDORES DE JESUS

*Alexandre Luís de Souza Nunes
Quantas vezes o nosso coração arde em fogo ao ver as reações humanas com relação ao semelhante. Por não sermos perfeitos, e trazermos recordações de um passado, algumas vezes, certamente sangrento, nosso corpo treme e nosso coração ferve ao vermos os gritos da guerra vislumbrados no horizonte. Mas cada caso é um caso, e nem todos os seres sentem os gritos da guerra como algo que clama em seu interior. Estes gritos, por vezes, nos fazem posicionar a favor de um ou outro lado num conflito bélico, em que na realidade não existe lado certo, já que em uma guerra a maioria perde, e somente aquele que consegue em meio ao ódio dar sinais de misericórdia é que realmente pode se considerar vencedor.
            O amor pode causar a dor quando mal compreendido as agruras que o ser humano encarnado esta suscetível. Quantos faliram em suas missões por entenderem que a partir de suas ações poderiam modificar o mundo. Nossa história esta repleta de seres que em nome da justiça, e sem compreender a justiça divina, cometeram atos de ignomínia pensando estarem de acordo com o pensamento de Deus, ou o que faziam, sendo bom para eles, seria bom também para o irmão.
            Judas Iscariotes é um dos primeiros exemplos do ser, que iludido pelo amor ao seu próximo, cometeu um erro, o de julgar que Jesus teria o pensar igual ao dele. Não foi a maldade que fez o ato consumado, mas um pensar de amor, no sentido de querer a liberdade de seu povo do julgo do opressor romano.
Este é o mesmo sentimento que hoje anima vários corações com relação aos Estados ditos opressores, quando não procuramos compreender a realidade de que, o que pode ser injusto aos nossos olhos, somente é a lei da ação e reação agindo tão habilmente.
            Quando entramos no campo vibratório dos que somente possuem a prioridade de defender seus próprios interesses, podemos confundir nosso pensar e sermos instrumento de concretização de objetivos mesquinhos. Num primeiro momento nos iludimos, achando que somos detentores do controle das rédeas da história e, que podemos num ambiente da política perniciosa ser a luz em meio às trevas. Muitas vezes não percebemos que nossa pequena luz pode ser cercada pela escuridão e, que o brilho que julgamos ter somente serve para cegar nossos próprios olhos, não ofuscando ninguém mais que a nós mesmos. Judas cometeu este erro. Julgou o semelhante por si mesmo, não compreendeu a missão do Mestre e achou que Jesus poderia mudar o coração dos “homens de poder” em seu tempo. No livro “Palavras do Infinito”, psicografado por Chico, “Humberto de Campos” nos fala de uma entrevista – sob a curiosidade do repórter que era – que fez com o próprio Judas na cidade de Jerusalém. De forma educada Humberto pergunta se realmente Judas foi um traidor, leia:
(Humberto pergunta) - É uma verdade tudo quanto reza o Novo Testamento com respeito à sua personalidade na tragédia da condenação de Jesus?
- Em parte... Os escribas que redigiram os evangelhos não atenderam às circunstâncias e às tricas políticas que acima dos meus atos predominaram na nefanda crucificação. Pôncio Pilatos e o tetrarca da Galiléia, além dos seus interesses individuais na questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estado romano, empenhado em satisfazer as aspirações religiosas dos anciãos judeus. Sempre a mesma história. O Sanedrim desejava o reino do céu pelejando por Jeová, a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra. Jesus estava entre essas forças antagônicas com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos apaixonados pelas idéias socialistas do Mestre, porém o meu excessivo zelo pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via a política, única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória. Com as suas teorias nunca poderia conquistar as rédeas do poder já que, no seu manto de pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade. Planejei então uma revolta surda como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um chefe de Estado. O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma obra vasta e enérgica como a que fez mais  tarde Constantino Primeiro, o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que aliás apenas serviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre, a Caifás, não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos.
            Nos dias atuais, quando ouvimos os discursos inflamados do ódio, em que uns se julgam capazes de julgar os outros, no qual o mais forte oprime o mais fraco pela força das armas, não devemos compactuar com a guerra. Poderemos dizer que o forte tem a obrigação de defender o mais fraco, e isto é uma verdade, mas como dizia Tolstoi, Gandhi e outros grandes espíritos quando encarnados, devemos “resistir à violência, mas não com a violência”, e neste sentido a guerra é a arma deles não a nossa.
            Atrás de todo ato de guerra existe os mesmos interesses de sempre, e como diz Judas é “sempre a mesma história”. História que se repete, porque insistimos em cometer os mesmos erros. O próprio Judas quando encarnado como Joana Darc, sentiu na carne o gosto amargo do fel da traição. A libertação da França, iniciada com Joana, é mais um fato no espiritismo-histórico-dialético de um conflito que poderia ser evitado, mas que os seres humanos ainda escolheram a Lei da Destruição ao invés da Lei do Amor para mudar a sua realidade. Sempre temos escolha, não existe guerra feita por um homem só, alguém manda, mas muitos executam e, todos são os responsáveis.
            A guerra não é um ato de trair Jesus? Qual seguidor de cristo pode justificar a mortandade sem ser um verdadeiro traidor Dele?
            Judas deixa bem claro que os traidores de Cristo, hoje, são aqueles que a custa do “ouro” vendem e comercializam a vida dos seus irmãos. Judas diz:
Em todas as homenagens a Ele prestadas, eu sou sempre a figura repugnante do traidor... Olho complacentemente os que me acusam sem refletir se podem atirar a primeira pedra... Sobre o meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios cheios de miséria e de infortúnio. Pessoalmente, porém, estou saciado de justiça, porque já fui absolvido pela minha consciência no tribunal dos suplícios redentores.
Quanto ao Divino Mestre – continuou Judas com os seus prantos – infinita é a sua misericórdia e não só para comigo, porque se recebi trinta moedas, vendendo-O aos seus algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo a grosso e a retalho, por todos os preços em todos os padrões do ouro amoedado...
- É verdade – concluí – e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-LO.
            O próprio Humberto pergunta a um ancião que chama de mestre no mundo espiritual:
E, sobretudo Mestre, é a perspectiva horrorosa da guerra... Não há tranqüilidade e a Terra parece mais um fogareiro imenso, cheio de matérias em combustão...
Mas o bondoso espírito-ancião me respondeu com humildade e brandura:
- Meu filho... Esquece o mundo e deixa o homem guerrear em paz!...
Achei graça no seu paradoxo, porém só me resta acrescentar:
- Deixem o mundo em paz com a sua guerra e a sua indiferença!
Não será minha boca quem vá soprar na trombeta de Josafá. Cada um guarde aí a sua crença ou o seu preconceito.  
Recebida em Pedro Leopoldo a 23 de abril de 1935.
           
Realmente, deixemos o mundo em paz com a sua guerra.

* Pensador Espírita