O homem e a mulher devem se completar e não competir por espaços que todos possuem. O homem é a aspereza do mundo e a mulher a beleza da delicadeza. A mulher é o equilíbrio do homem e este a segurança dela. Um não deve viver em rota de colisão com o outro, não deve existir a força bruta que machuca e nem a indiferença que maltrata. O lar deve ser o ambiente que ambos reponham suas forças para as lutas diárias.
O filme Nosso Lar, inspirado no livro de mesmo nome, mostrou de forma magnífica o mundo espiritual sob a visão de nosso amigo André Luiz. Mas o filme foi dedicado ao público leigo, pois o livro tem nuances tão polêmicas, que mesmo para o nosso tempo ainda são tabus que os idealizadores da produção cinematográfica não tiveram a coragem de tocar, ou inspirados por seres superiores foram orientados a não colocarem naquele momento.
Um destes pontos polêmicos é com relação à figura da mulher, ou seja, do espírito encarnada na situação do gênero feminino e a visão do casamento no relato do capítulo do “Caso Tobias”.
O casamento por algumas seitas do cristianismo primitivo, ligadas a um pensamento socialista, como os Cátaros, era visto como uma forma de propriedade inaceitável da mulher pelo homem. Eles acreditavam que o amor não precisava de amarras e que a propriedade privada, fruto do egoísmo, também estava representada na figura do casamento contratual, seja ele no religioso, ou modernamente falando, no conceito do direito civil.
O caso Tobias fala da relação terrena e espiritual com Luciana e Hilda, que no mundo dos espíritos vieram a habitar o mesmo lar espiritual. Na carne Hilda possuía um casamento feliz, de duas almas que se juntam para compartilhar uma vida de lutas em perfeita sintonia dos espíritos. Mas como desconhecemos os desígnios de Deus, Hilda desencarnou e inconformada ficou próxima aos seus depois de uma passagem pelo umbral. Tobias desnorteado e precisando do apoio necessário de uma alma na veste feminina, desposa Luciana, irmã dedicada que substitui a mãe ausente de dois filhos. O ciúme humano de Hilda e Luciana impede num primeiro momento de ver a benção de Deus, que na sua imensa sabedoria enviou uma irmã caridosa para ser o amparo moral como esposa do marido que sofre e a mãe dos filhos que estão órfãos. Mas com a interseção de um bom espírito, que fora avó de Hilda, o esclarecimento surge, e o veneno do ciúme é dissipado pelo antídoto do amor.
O sentimento de posse é umas das chagas da humanidade, que impede de ver a grandiosidade das ligações na carne entre os gêneros de espécie humana, e como diz Luciana:
(...) graças a Jesus e a ela, aprendi que há casamento de amor, de fraternidade, de provação, de dever, e, no dia em que Hilda me beijou, perdoando-me, senti que meu coração se libertara desse monstro que é o ciúme inferior. O matrimônio espiritual realiza-se, alma com alma, representando os demais simples conciliações indispensáveis à solução de necessidades ou processos retificadores, embora todos sejam sagrados.
Mas qual a relação no lar entre a figura do espírito encarnado como homem ou mulher? Qual a ligação entre ambos?
No capítulo vinte – “Noções de Lar” – André pergunta à senhora Laura: Mas a organização doméstica, em "Nosso Lar", é idêntica à da Terra?
Dona Laura responde:
- O lar terrestre é que, de há muito, se esforça por copiar nosso instituto doméstico; mas os cônjuges por lá, com raras exceções, estão ainda a mondar o terreno dos sentimentos, invadido pelas ervas amargosas da vaidade pessoal, e povoado de monstros do ciúme e do egoísmo. Quando regressei do planeta, pela última vez, trazia, como é natural, profundas ilusões. Coincidiu, porém, que, na minha crise de orgulho ferido, fui levada a ouvir um grande instrutor, no Ministério do Esclarecimento. Desde esse dia, nova corrente de idéias me penetrou o espírito.
Sobre o orientador Dona Laura falou:
- O orientador, muito versado em matemática - prosseguiu ela -, fez nos sentir que o lar é como se fora um ângulo reto nas linhas do plano da evolução divina. A reta vertical é o sentimento feminino, envolvido nas inspirações criadoras da vida. A reta horizontal é o sentimento masculino, em marcha de realizações no campo do progresso comum. O lar é o sagrado vértice onde o homem e a mulher se encontram para o entendimento indispensável. É templo, onde as criaturas devem unir-se espiritual antes que corporalmente. Há na Terra, agora, grande número de estudiosos das questões sociais, que aventam várias medidas e clamam pela regeneração da vida doméstica. Alguns chegam a asseverar que a instituição da família humana está ameaçada. Importa considerar, entretanto, que, a rigor, o lar é conquista sublime que os homens vão realizando vagarosamente. Onde, nas esferas do globo, o verdadeiro instituto doméstico, baseado na harmonia justa, com os direitos e deveres legitimamente partilhados? Na maioria, os casais terrestres passam as horas sagradas do dia vivendo a indiferença ou o egoísmo feroz. Quando o marido permanece calmo, a mulher parece desesperada; quando a esposa se cala, humilde, o companheiro tiraniza. Nem a consorte se decide a animar o esposo, na linha horizontal de seus trabalhos temporais, nem o marido se resolve a segui-la no vôo divino de ternura e sentimento, rumo aos planos superiores da Criação. Dissimulam em sociedade e, na vida íntima, um faz viagens mentais de longa distância, quando o outro comenta o serviço que lhe seja peculiar. Se a mulher fala nos fílhinhos, o marido excursiona através dos negócios; se o companheiro examina qualquer dificuldade do trabalho, que lhe diz respeito, a mente da esposa volta ao gabinete da modista. É claro que, em tais circunstâncias, o ângulo divino não está devidamente traçado. Duas linhas divergentes tentam, em vão, formar o vértice sublime, a fim de construírem um degrau na escada grandiosa da vida eterna.
E diz Laura logo a seguir:
O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências, e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem. Dentro de casa, a inspiração; fora dela, a atividade. Uma não viverá sem a outra. Como sustentar-se o rio sem a fonte, e como espalhar-se a água da fonte sem o leito do rio?
Fica claro que o homem e a mulher devem se completar na terra, e que as ligações de amizade e afeto, devem superar as de propriedade. Nós espíritas sabemos que a condição de gênero é escolha individual, e que todos hora num ou em outro estado na matéria, cumpre sua missão de resgate e ou auxílio. Não deve haver dissensões entre o homem e a mulher, pois como as rosas, os espíritos são iguais, diferentes na forma, mas iguais na essência. O lar é o ambiente sagrado, onde se busca o equilíbrio de um verdadeiro sentimento cristão. Não deve haver disputa entre irmãos de jornada, então, que saibamos compreender que a união de almas é muito mais que a simples certificação cartorial e, que não é um homem terreno que dirá que os pares estarão unidos para sempre. Assim sendo, saibamos viver juntos e em paz.

